segunda-feira, 15 de março de 2010

Espírito de Prostituição à Moda Brasileira



"Jezabel leva a mulher a sentir um forte desejo por outra, levando-se a pratica do lesbianismo. Mães e esposas dominadas pelo “espírito de Jezabel” tendem a empurrar os filhos ao homossexualismo. Ela é um “espírito de rebelião” que leva os filhos a rebeldia e as drogas. Mulher rebelde e insubmissa ao seu marido contamina também aos filhos, levando-os a rebelião." (Site de uma igreja neo-pentecostal)

   O neo-pentecostalismo latino-americano, e o brasileiro em particular, é um fenômeno sui-generis no mundo. Não há coisa parecida em lugar algum e em nenhum momento da história. Dá muito caldo para sociólogos, antropólogos, historiadores e outros cientistas sociais escreverem e abordarem a religiosidade neo-pentecostal tupiniquim.
   Uma das características marcantes deste nosso modelo neo-pentecostal é a influência das "religiões de possessão", como a classificam Bastide, Verger e seus pares. As religiões brasileiras da Umbanda e do Candomblé são as grandes contribuintes das doutrinas neo-pentecostais da Terra de Santa Cruz.
   Já escrevi que os personagens da mitologia Yorubá e Bantu estão presentes nas cosmologias das crentes do "coque". Pomba-Giras, Exus, Tranca-Ruas, Orixás, Caboclos e guias são parte integrantes das liturgias afro-cristãs-brasileiras.
   As "religiões de possessão" de Bastide e Verger, e por que não incluir entre elas muitas igrejas neo-pentecostais, creem em "espíritos" pessoais, entidades ligadas às forças da natureza e influenciadoras de personalidades. Tanto na Umbanda, quanto na IURD, quem influencia a bebedeira é a "Maria Mulambo" e quem faz alguém ser gay ou prostituta é alguma "Pomba-Gira".
   Para algumas igrejas destas, "o espírito de Jezabel" é "espírito de prostituição e homossexualismo" (sic). Isso sem considerar que no contexto hebreu, "espírito" (ruah) não é um ser personificado, mas uma força impessoal. Quando se fala em "espírito" de alguma coisa no contexto hebraico antigo, estamos falando de alguma "força", "motivação", "ação" e nunca de um personagem animado.
   Nos rituais de exorcismo em tais igrejas fala-se com "Jezabel", o tal espírito causador da prostituição e "homossexualismo" (sic), à maneira brasileira, umbandista, e não à maneira de entender dos hebreus do pré-exílio. Jezabel é a nova Pomba-Gira dos arraiais neo-alguma-coisa.
   Mas você deve estar se perguntando: "Por que o Gustavo tá enrolando tanto pra falar desse assunto?". Bom vamos lá...
   Não é novidade alguma que algumas igrejas neo-inclusivas creiam na mesma cosmologia neo-pentecostal brasileira, afinal, são frutos dela. Mas há de se considerar algumas coisas.
   Dia destes eu recebi um email com uma cópia de uma declaração de um membro de uma destas igrejas (neo-inclusivas) onde dizia algo assim: "homossexuais possuem o espírito de Jezabel, porque foram excluídos da Igreja Cristã... Por isso são motivo de vergonha e promiscuidade para suas famílias e para a sociedade..."
   Eu não acreditei no que estava lendo... li novamente. Será possível que alguma Igreja Inclusiva pode estar pregando este tipo de coisa? Não cri! Mas, era a mais pura verdade. Na hora me veio uma enorme tristeza e uma pergunta me foi feita: "será que a militância LGBT já leu este tipo de coisa?", Não será por isso que nós, Igreja Inclusiva, somos tão menosprezados pela militância LGBT como pessoas que não agregam valor à luta contra as injustiças?
   É vergonhoso! Lutamos tanto para dizer ao mundo que os gays não são o esteriótipo do "promíscuo", "vadio" e "prostituto"e o reforço do preconceito surge de dentro dos nosso arraiais. Reforço, validação do preconceito, utilizando para isso a poluída e sincrética doutrina neo-pentecostal.
   O mito de Jezabel é muito válido para o crente de hoje, seja ele gay ou heterossexual. Sua estória nos mostra os riscos da tentação e os descaminhos de se dar mais valor aos valores "mundanos" (amor ao dinheiro e paixões da carne) que aos altos valores dos céus. Mas jamais, nunca, se observa nesta estória, a validação da demonologia pagã preconceituosa pregada por certas igrejas.
   A mensagem de que gays, lésbicas e transgêneros são perdidos e promíscuos já é pregada pelos religiosos preconceituosos do status quo. Não se espera que nenhuma entidade, dita inclusiva, reforce esta mensagem. A mensagem de morte deste mundo sempre será pregada pelos religiosos, ansiosos por "fechar o caminho para a salvação", uma vez que eles não entram "e não deixam ninguém entrar" pelas portas do Reino. Mas não cabe, de forma alguma, da parte de gays e lésbicas cristãos a perpetuação desta mensagem de opressão.
   A cada dia mais tenho certeza de uma coisa, e nisso louvo as Igrejas da Comunidade Metropolitana: não se ordenam pastores sem formação apropriada, se há chamado ou vocação faz-se necessária uma formação acadêmica adequada para tais. Senão veremos a perpetuação do que aí está, ignorância e preconceito perpetuados não somente pela igreja do status quo, mas também por aqueles que se dizem eles mesmos cristãos "inclusivos".

Diác. Luiz Gustavo.
www.igrejainclusiva.blogspot.com

3 comentários:

Memória Lélia Gonzalez disse...

Sr. Luiz Gustavo,

Com todo respeito à militância "inclusiva" demonstrada em seu texto, gostaria de lembrar que todas as fobias e discriminações são filhas da mesma intolerância e síndrome de poder.

Nesse sentido, gostaria de evidenciar, ao contrário do que o Sr. diz: "As religiões brasileiras da Umbanda e do Candomblé (NÃO) são as grandes contribuintes das doutrinas neo-pentecostais da Terra de Santa Cruz." Muitas "Doutrinas" (seitas, apelos, opiniões, doxas) preconceituosas e excludentes LANÇAM MÃO do conhecimento e liturgia das religiões afro-brasileiras para se locupletarem, seja na antiga intenção da "catequese" dos (ainda hoje) escravizados, seja para tomar-lhes os minguados dízimos que vão encher a "burra" dos "catequizadores".

Uma coisa é dizer que "As religiões brasileiras da Umbanda e do Candomblé são as grandes contribuintes das doutrinas neo-pentecostais..." Outra coisa é dizer "Certas, ou algumas, ou as doutrinas... LANÇAM MÃO dos valores, do conhecimento e da doutrina da Umbanda e do Candomblé PARA manipularem... e ..."

Sua declaração sobre "... quem influencia a bebedeira é a "Maria Mulambo" e quem faz alguém ser gay ou prostituta é alguma "Pomba-Gira"." é tão de senso comum quanto aqueles/as que absolutamente tratam as Religiões afro-brasileiras como menores e de gente desaculturada...

Será importante que ao analisar criticamente "religiões", "sociedades" ou "pessoas" que, sem capacidade de raciocínio ou por má fé, são homofóbicas, lesbofóficas, o Sr, pudesse estar "isento" de todo e qualquer preconceito.

As religiões de matrizes africanas jamais precisaram se chamar "inclusivas" para aceitar / acatar / receber / acolher todo e qualquer ser humano, em sua plenitude de valores, afetividade e tudo o que diga respeito a SER HUMANO.

Desculpe, mas só o fato de se chamar "inclusiva", implica na face oposta: NÃO inclusiva. E esse é também o perigo das mentes.

Ao dispor,
Ana Felippe
Coordenadora Executiva de Memorial Lélia Gonzalez

Anônimo disse...

Vi o seu artigo por um acaso virtual, gostaria de tentar entender a sua posição e de sua igreja mais amiúde, se possível, entre em contato comigo por e-mail - lmothe@yahoo.com.br - desde já agradeço a atenção.

Anônimo disse...

Fica notória a pulsão de auto-preservação religiosa, uma eugenia epistemoteológica em detrimento da dialética social efetiva. Se perguntado a respeito da colaboração de demais credos ao culto neopentecostal, acredito que o pastor dessa denominação também irá taxar de forma a negá-lo, tanto quanto a internauta que postou esse comentário, para higienizar o credo afro de cooperar - ainda que nao intencionalmente - com o credo que se volta contra ele. Por mais robusto que esteja o parasita, qual planta quer ser taxada impunemente de hospedeira? Luter de Souza.